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Professor de Economia da UFPR critica Lei do Desemprego, entrevista com Lafaiete Neves

Curitiba, 01 de fevereiro de 2019 | 17h01

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Ele ressalta a perda de qualidade no transporte e o impacto na economia local como manobra para enriquecer os empresários

O Sindimoc realizou uma entrevista com Lafaiete Neves, professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialista no transporte coletivo de Curitiba, que, em artigo publicado pela Gazeta do Povo, já havia se mostrado contrário a Lei do Desemprego.

Graduado em História pela UFPR, com mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutorado em Desenvolvimento Econômico pela UFPR, ele é membro da Plenária Popular de Transporte. Além disso, é autor do livro Movimento Popular e Transporte Coletivo em Curitiba, publicado pela editora Gráfica Popular em 2006.

Em entrevista ao Sindimoc, Neves afirma que o projeto de lei enviado pelo prefeito Rafael Greca, que demite 6.000 cobradores, nada mais é do que uma iniciativa do Executivo Municipal para aumentar os lucros dos empresários do transporte coletivo da capital, algo que o Sindicato também já vem afirmando desde o início da Campanha “Somos Todos Cobradores”, em outubro do ano passado.

O especialista conta que o projeto é resultado da política equivocada da URBS em impor e regulamentar a licitação do transporte coletivo em 2009: “Essa licitação de 2009 foi denunciada em todos os níveis, do administrativo ao judiciário, como profundamente prejudicial aos usuários. Hoje essa licitação sofre uma Ação Civil Pública, por parte do Ministério Público do Paraná, pelos fortes indícios de fraude. Cabe destacar que na regulamentação da licitação se impôs a dupla tarifa, a do usuário e a tarifa técnica, algo inédito no país na prestação de serviços públicos, desde a água, luz e telefone.”

Lafaeite explica que essa manobra “legal”, associada a cláusula do “equilíbrio econômico financeiro”, os empresários podem alegar desequilíbrio econômico e financeiro quando lhes interessa e forçar o reajuste da tarifa, até por meio de locaute, forçando a paralisação dos serviços pelo atraso no pagamento de salários e obtendo o que querem, ou seja, o reajuste da tarifa.

Segundo o economista, foi isso levou a tarifa de Curitiba saltar de 15ª mais alta do país em 1990 para uma das mais caras do Brasil hoje. A consequência é a queda contínua do número de passageiros, em torno de 30% hoje, o que obriga a elevar ainda mais a tarifa como deve ocorrer no final de fevereiro. O prefeito Rafael Greca ao invés de denunciar os contratos e obrigar judicialmente a uma repactuação para alterar os parâmetros inflados dos custos tarifários, prefere atender os interesses dos empresários, como agora, eliminando os cobradores do transporte coletivo de Curitiba e agravando a questão social em nossa cidade.

E essa queda no número de passageiros tende a agravar com a demissão dos cobradores que traria uma piora na qualidade do transporte coletivo. Lafaiete, que é membro titular do Conselho da Cidade de Curitiba (Concitiba), lembra que sem a compra da passagem nos ônibus, a vida do usuário que não tem acesso ao cartão fica muito mais difícil.

 

“Os turistas ou pessoas de outras regiões e do interior do Estado que precisam vir a capital, terão enorme dificuldade em usar o transporte coletivo, o que irá agravar ainda mais a queda do número de passageiros. O usuário tem que ter a sua vida facilitada para poder usar o transporte coletivo, se isso não acontece, ele irá buscar outro meio de transporte. Nos países desenvolvidos, há uma combinação do uso do cartão e da cobrança em dinheiro. Se Curitiba se diz modelo para o mundo, como explicar tal retrocesso? ”.

 

Quando questionado sobre o impacto econômico da demissão de 6.000 trabalhadores da capital, Neves lembra que os dados publicados pelos DIEESE são muito claros e que a economia local sem dúvida será afetada pela perda no consumo. Como sinalizado anteriormente pelo DIEESE, R$ 183 milhões de reais por ano deixariam de circular na economia da capital. O INSS, por exemplo, deixaria de recolher em torno de R$ 26 milhões por ano, agravando ainda mais o déficit do Instituto. Seriam exatos R$ 212.935.694,40/ano a mais no bolso do patrão.

Sobre o aspecto trabalhista, ainda que a prefeitura e os empresários aleguem a realocação – sem definir precisamente como –, Lafaiete tem uma opinião bem formada: “É balela esse papo que não irá demitir e sim qualificar os trabalhadores para novas funções. Quem garante que terão emprego depois de passarem pelos cursos profissionalizantes? O desemprego no Paraná atinge hoje quase um milhão de trabalhadores, a grande maioria na capital e com cursos profissionais qualificados. ”

Outra tentativa de enganação da opinião pública é afirmar que Curitiba sempre foi modelo no transporte público e precisa inovar, de acordo com Neves. “A verdade — esclarece — é que os empresários do transporte coletivo nunca aceitaram a tarifa pública recolhida pela URBS nos ônibus e paga posteriormente a eles. O que eles querem é o dinheiro no bolso no dia a dia, para ganhar mais dinheiro aplicando em investimentos e no mercado financeiro, sem retorno aos usuários do transporte coletivo. Por essa razão, forçaram o ex-governador Beto Richa a falsa briga política com o ex-prefeito Gustavo Fruet e conseguiram a desintegração com a Região Metropolitana de Curitiba (RMC), passando a recolher diariamente a receita do transporte público da RMC, engordada com os subsídios que eram pagos para Curitiba. Para tal operação, montaram um sistema eletrônico de venda de bilhetes via cartões (Metrocard) para antecipar a receita. E quem não usar, perde depois de um certo tempo. ”

“Parece que todas essas desgraças, de demissões e aumentos brutais de tarifa, estão acontecendo depois daquele fatídico jantar do prefeito com o maior empresário do transporte coletivo de Curitiba, no Graciosa Country Clube, no início do seu mandato”, finaliza o economista.

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